domingo, 22 de maio de 2016

Chá de Domingo #80: Construção de Mundos - Parte 2/4

Hoje vou continuar o artigo sobre a construção de mundos que iniciei aqui.


O Mundo é mais que um apoio à trama
A história não é só a trama. O que significa que o mundo criado terá de servir de pilar para o ambiente, tema, conflito, personagens e cultura da história.  Não deve ser só apresentado para fazer avançar a história, os detalhes devem envolver toda a narrativa e não se limitarem só à trama e à acção.

Mostrar, não contar
Isto é válido para outras vertentes da história. Nunca é demais chamar a atenção para um contar excessivo! Os detalhes do mundo devem ser trazidos pelos diálogos e pela acção. Nenhum leitor gosta de ter de enfrentar um monólito de descrição.

Simples ou Complexo?
Esta é uma questão que não tem um resposta última, depende muito da história que desejam contar. Certas histórias têm uma trama tão atraente ou personagens tão carismáticas que ofuscam por completo o mundo. Certos tipos de história exigem um mundo monocromático e simples (por exemplo: as fábulas e as "Era uma vez..."). As restantes devem afastar-se da construção simplista: estes são os bons e estes os maus. Por que é que acham que o Game of Thrones tem tanto sucesso? Não tem nenhuma personagem totalmente boa e inocente, nem nenhuma só má e perversa. Todas são um misto, que as diversas circunstâncias evidenciam determinadas características. Assim deve ser o vosso mundo. Não há grande novidade se o elfos forem os bons e os trolls os maus. É muito mais interessante se em cada raça houverem personagens realistas, ou seja, nem boas nem más. Agora é só extrapolar isto para as restantes vertentes.

Falar só sobre aquilo que se sabe
Este é um daqueles conselhos que vemos repetido um milhão de vezes. Em geral é um bom conselho e que deve ser seguido, mas há excepções e a construção de mundos é uma delas. Na ficção especulativa, é um daqueles conselhos que faz o escritor querer mandar com a cabeça na parede. Como raio vou escrever sobre o apocalipse? Como vou descrever homicídio? E como vou completar aquela cena de sexo entre um alien e um elfo? A maioria dos escritores aqui presentes só passou por apenas duas delas e numa estavam notoriamente embriagados. Como é que podemos então usar este conselho na construção de mundos? Não podemos! Pode ajudar na construção de personagens e situações, mas não de mundos. Não é totalmente verdade o que acabei de escrever: pode-se pegar em coisas que entendemos e extrapolar. Nem todos têm acesso às maquinações internas de um parlamento, mas até uma reunião de condomínios pode evidenciar o mesmo tipo de jogos e interesses, portanto o segredo é observar e adaptar. À falta disso, podem ir buscar inspiração à cultura, política e história. Leiam não-ficção sobre outros lugares e sobre outras pessoas. Não deixem que escrever só sobre aquilo que sabem seja uma barreira, mas um incentivo para saberem mais.

Uso de estereótipos
No caso da construção de mundos, e noutras coisas também, devem fugir dos estereótipos como o diabo da cruz. Heróis brancos e senhoras em apuros devem-se evitar, assim como uma uma raça que age toda do mesmo modo. Nenhuma cultura é monolítica, nem a cor da pele define o comportamento e muito menos as habilidades. Os homens e as mulheres não são coisas estáticas e cópias uns dos outros e totalmente estanques em termos de género. Os estereótipos são preguiça na melhor das hipóteses e insultuosos na pior. 

Este artigo foi adaptado a partir daqui.

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